quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Romance itinerante

Tem três décadas que ele viajou.
Eis que se inventou o foguete e danou-se
de querer conhecer o universo.
Disse que traria uma pedra da lua, um diamante do Sol.
Disse que traria as bênçãos de São Jorge
e escamas do seu dragão.
E já faz uma vida que sumiu entre as estrelas!
Mas eis que toda noite olho para o céu
e uma estrela me brilha em especial.
E penso “é ele carregando o diamante entre os dentes,
espada na mão, feição de guerreiro.”
E me sinto sentada no infinito, cosendo nas mãos um crochê de galáxias.

- remexendo coisa velha.

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Esforço

Quando nesta época as coisas forem todas escuras
necessita-se de mãos de pura coragem
necessita-se de mãos imundas, imundas de vida
necessita-se varrer os escombros mais duros, as crostas mais antigas
necessita-se a sede - ah, como é necessária a sede fremente de verdade.
E só então tudo ressurge em completa luz.

Mas para tal, precisa-se de um quarto olho que nos dê mais do que nossa intuição mesquinha.

Um quarto olho, um olho que sonde e aceite a verdade impura de nossa alma.
Um quarto olho, um olho que entre no meio do redemoinho das coisas e, palpitante, revele e destaque a hora da pausa.
Um quarto olho, um olho que enxergue além da essência, porque, às vezes, o fundo da essência é duro.
E só então, exposta a verdade, a vida assuma-se sem pretextos.

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Minha resposta (sem que ninguém tenha perguntado)

Metapoética
Quero escrever como escrevo,
despretensiosamente.
Na diferença,
reside minha liberdade.
Se o padrão me execra,
alguém no mundo se encanta
com minhas palavras.
No máximo, organizo-me
para meu maior prazer.

- Tinha que postar essa primeira por desencargo de consciência.

sábado, 3 de novembro de 2007

Por trás do espelho. (ou a verdade do amor)

Sutilíssimo
Deixe-me arrepiar tua nuca
com dedos de mestre
que tenho guardados
para singela ternura. Posso?

Suspiro uma tez volátil.
Algo de seu resvala no íntimo,
preciso vomitá-lo, revelá-lo, tocá-lo.
Gravar na tua superfície
marcas de minha paixão. Posso?

O que desejo é uma montanha,
um vulcão adormecido:
sustento o sonho furtivo
de uma prepotência minha
exclusivamente para você. Posso?

Esconde coisa que me pertence,
mas não há para onde correr.
O abstrato e a essência,
desde que predominam,
são deliberadamente meus. Posso?


Por Dona Lânguida, em seu mundo de amor.

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

O umbral entre a luz

Metamorfose
O fio da navalha corta;
o sangue é evidência efêmera.
Subsiste certo atrito com o tempo:
eis a prova de fogo
da exatidão da lâmina,
exausta de tanta guerra.

Por Dona Nervosa, da beira do cais.

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

Dossiê e alma
Mergulho em palavras:
São nessas horas em que vivo,
quando não-sou.

Desde que o sempre é sempre
E o tempo é tempo
Preexisto minha essência, lenta, cativa
(LATENTE)

E só então me crio, amálgama inventado.

Por Dona Plácida e sua leveza.

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

A primeira paz

Religião
Amor, amor, deixa-me dar-te um último beijo
Beijo fúnebre, com sabor de morte
Depois me tornarei frio
E escaparei de tuas mãos.

Dá-me teus últimos lábios,
agora morro em lástimas
E aos poucos minha essência derrete
Pra caber na terra inexorável.
(Se ainda quiseres lembrar-te de um
último gosto meu, leva meus olhos
no espelho da tua mente

e bebe neles a gota derradeira de emoção.)

Por Dona Plácida e suas lágrimas mornas.